IMG_20170525_122107Fiquei tão radiante quando o vento do rio do inferno esfriou minha ignorância. Deixei-a apaziguada. Senti a efervescência da vida. A chuva ensina dissolver expectativas.

O rio está vivo porque ainda não secou. Quando secar não há mais para onde correr.

Não sei mais o que dizer.

Um mar que a cor esqueceu. Como resto de brasa.

Talvez eu queira somente dizer.

Não vou poder, vou potência.

Quero colocar minhas raízes pra fora, como a árvore de moreré fez.

A razão é muito exigente, quero não!

 

Simone Portugal escreve em 25/05/2017, enquanto caminha dentro de si, entre mares e rios de Boipeba.

Apara

Aparentemente a pedra não está viva. Aparentemente o rio apenas corre. Aparência é o externo do desconhecido.
Por exemplo, sinto por dentro o coração arder, e nem sei explicar o que são os sentimentos. Ajo de um jeito esquisito, porque dói muito saber-se nada e ao mesmo tempo alivia.

Simone Portugal escreve a caminho da ilha de Boipeba- Bahia em 24/05/2017 enquanto quer apenas “curar da cidade” como canta Lenine.

Um, dois, três e…

 

 

Um

O governo não serve ao povo

Serve a ele mesmo:

Patriarcal, limitador

anti-reflexivo.

/

O governo faz a gente temer

E tendo em vista os fatos

somos uma multidão de “subjugadxs”.

Elegemos os patrões

E as ordens descem em progresso.

/

Perguntamos: o que podemos fazer?

A resposta é uma bomba no olho

da nossa ilusão de democracia.

“Votemos cônscios!”, dizem muitos.

Em outubro a maioria decide

continuar lambendo a sola

daquele que engana melhor.

/

Com sorriso irônico

de fortuna histórica

o eleito pela maioria

Vence pela fama:

“Rouba, mas faz.”

 /

Eu nunca iria querer ser vocês.

Continuadores da pobreza fabricada.

Como consegues dormir a noite?

Rei dos privilégios!

 Herdeiros das terras roubadas!

Evoluções de carrapatos!

 /

Ainda é possível entregar-se na próxima delegacia.

Assassinos com foro privilegiado!

 /

Dois

 /

Ementam nossos corpos

Que já foram torturados

Sessenta e quadro vezes.

E qual foi o nosso lucro?

Nossa escravidão?

Nossa terra com esses donos?

 /

Faço cocô nesse latifúndio

Rebanho de parasitas

que não sabem pensar além da cédula.

Seus hipócritas mortais filhos do útero.

Concluem que são superiores

porque fazem seus iguais de submissos?

Tuas atitudes

Não passam de um vírus, peste bubônica,

Que a gente não vê a hora de limar da face da terra

/

Oh que grande obra humana

Milhares de oito horas obedecendo

Um sangue suga colonial ultrapassado

Usurpador do nosso sentido da vida.

/

Que grande felicidade, milhões no exterior

E quando senta no vazo sanitário faz força.

Mija na nossa inteligência

Que embora não dê “lucro”,

vai continuar existindo,

apesar de, ela ressurge.

Assim… igual a natureza:

não somos concretos.

/

Três  

/

Ao menos dê descarga, abutre!

Canalhas conservadores da crueldade

Esqueceram de lhes avisar, que sois mortais?

 /

Temo que batam a minha porta

E apontem-me uma direção.

Em tempos de golpe

Qualquer pensamento vira suicídio.

/

E…

 /

Fazem-nos depender do que não brota da terra.

As árvores ainda dão flores, é primavera…

Mas é melhor vender nosso chão, nosso natural, nosso tempo.

Seus impostores sentadores de misérias.

Começo a inferir que circula gasolina em suas veias.

Pareces um carro desgovernado:

Um exemplo de ordem.

 /

Mostre-me o que acontece

Com quem anda na rua

E sangra por salário,

Salvador da pátria!

/

Salvador da pátria um dia será mátria

Se o poder fosse abortado, nada disso teria durado.

/

O governo não serve ao povo

Serve a ele mesmo:

Patriarcal, limitador

anti-reflexivo.

/

simone portugal escreveu em maio de 2016, em tempos de golpe.

Hipocrise

Vamos tomar banho na cachoeira de lama do parque São Bartolomeu! Aproveita que está chovendo. Vamos passear de pés descalços no esgoto! Vamos lá! Fazer uma festa para a facada que levamos da vida. Vamos gente! Continuar… essa aparência de felicidade. Vamos lá, fingir que está tudo bem! Só mais um pouco. A gente pode aguentar mais um pouco a pressão. Vamos rezar para que alguém faça algo por nós. Vamos! Vamos continuar colocando as quatro paredes nos nossos sentimentos. Vamos torcer com muita fé para o time dos vencedores! Vamos! Vamos achar que somos alguma coisa infinita! Vamos! É só querer! Vamos beber um pouco de álcool para esquecer as fronteiras por algumas horas e dizer algumas “verdades”. Amanhã teremos a desculpa que esquecemos e nada poderá nos acontecer. Vamos ser otimistas, enquanto catam lixo na porta de casa para comer. Vamos! Vamos esperar as eleições para votar no grande ladrão respeitável de terno. Vamos agora! Vamos continuar caminhando pela rua com medo. Vamos! Vamos nos orgulhar de ter grana para o mercado! Vamos gente! Ainda é possível bajular o próximo bem aventurado a fim de ganhar alguma coisa em troca. Vamos! Quero para ontem! Vamos dizer que gostamos de limpar privada! A gente não pode fazer nada! Vamos acreditar nisso! Vamos?

Não! Estou enjoada!

Simone Portugal escreve em 13 de maio de 2017. Enjoada de tudo o que já engoliu.

Pausa

Vontade de dar uma pausa na escrita. Mas até quando tenho vontade de dar uma pausa na escrita, tenho vontade de escrever sobre a pausa na escrita e sobre a pausa na escrita, tenho pausas a dizer.

Simone Portugal escreve numa pausa preenchida pela escrita.

Seguimento vírgula

Quero começar uma frase e no meio dela parar só para dar a impre…

Pronto, e se o que estiver pronto nunca esteve como

continuar na outra linha sem ter terminado de dizer o que

havia dito, “isto não é poesia” – alguém me diria, “veja a forma errada que

ela escreve”, não tem estilo de fazer estrofe, querendo

ou não, estou perdida amanhã tenho que dar

certo.

quero recomeçar minha vida com letra minúscula para esquecer cobranças culturais de ter que ter, ter que ser, ter que colocar um ponto de seguimento  Apesar de saber que a gente não recomeça, apenas segue,  o que muda é a cidade, os afazeres, as pessoas, mas a gente por dentro está em continuidade Se não aprendeu a amar… leve, tudo continua, o dia amanhece, a tarde suicida, a noite esfria, e no outro dia mais uma vez, você, ai por seus afazeres cotidianos tão mesmos, que as vezes, parece que a vida se tornou um plano, um caderno que se leva o dia escrevendo o que fará amanha e novamente amanha acorda e escreve novamente o que fará

Já disseram sobre isso e já eram também, repito porque faço o que quiser com o que escrevo Ela já foi, aquela temporada no meio das árvores é tudo fim e foi maravilhoso o barulho dos pássaros fazendo orquestra natural Minha política é dizer que a vida acaba e essa sensação de que se é uma só  Ser uma entre milhares ecoa uma sensação rala de covardia e fora temer Depois a gente esquece a vírgula e pode ser que algo faça sentido depois que os nós forem retirados As vezes digo as vezes porque não é sempre e isso é óbvio Porque é preciso repetir o que já se sabe para não perder a cultura de fingir que si é sensacional A gente não sabe o que fazer para chegar lá é tão angustiante e a gente espera que seja um pouco menos um plano que que que que essa vontade de que que que tudo mude tome a roupa da embriaguez e a gente pare de pensar na segurança porque a gente se sente inseguro até para sorrir que  que que parece que é só por fora Depois, a virgula volta, o ponto continua. E é seguimento, é dúvida, é quarto, é sala, é cozinha, é café da manhã no fim da noite e que o sono demore a chegar porque queremos mais um tempo antes que que que o dia acabe.

Simone Portugal escreveu

enquanto já se passaram dias.